Mundo

Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Onde?

Em abril último, na França, entrou em vigor uma lei que proíbe mulheres muçulmanas de usarem a burca e o niqab em público. A lei prevê a aplicação de uma multa de € 120 às infratoras, além de “aulas de cidadania”.

Dentre muitos comentários na internet, encontrei este, que condensa bem a opinião geral:

“Que é isso? Imigrante chega no seu pais e quer impor os costumes da sua terra, ainda mais costumes religiosos que por si só diminuem a mulher? Sim, tem que multar, valer a lei. SE algum ocidental for para a Arábia Saudita e usar um crucifixo é tomado na hora e a pessoa é humilhada e pode ser até presa. Assim é tambem se exibir uma bíblia ou falar de Jesus. Por que o ocidente deve se submeter a costumes que não são nossos?”

Muito bem, meu caro José, vamos voltar no tempo. Quando os colonos europeus chegaram na América (apenas um exemplo), trouxeram na bagagem não só sua religião — que fizeram questão de socar goela abaixo dos locais — mas também armas, varíola & outras desgraças. Foi o mesmo europeu que, séculos depois, ergueu a bandeira da Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade. Outros tempos, você diria.

Liberdade religiosa não se enquadra no conceito francês de “Liberdade”? Os direitos das mulheres mulçumanas de ir e vir e de manifestar publicamente sua religião estão sendo tolhidos na França, em detrimento de uma lei xenófoba e retrógrada.

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Milicos vão em cana por crimes contra a humanidade

Os Punheteiros da Bandeira sul-americanos — que aplaudem governos tirânicos e simplesmente AMAM homens uniformizados — vêm sofrendo duros golpes (HAHA) neste aprazível mês de novembro. São os mesmos babacas reacionários de sempre, que só fazem chupar a bola dos milicos e balbuciar frases estúpidas sobre como Uma Nova Ditadura Colocaria Tudo Nos Eixos, e que não devem ser levados a sério sob nenhuma circunstância. Reflito constantemente sobre os motivos que levam uma pessoa a aprovar a conduta de assassinos & estupradores, mas não consigo chegar a uma conclusão plausível. Talvez sejam todos doentes mentais.

Mas vamos aos fatos:

Ontem, o prefeito do distrito de Providência, em Santiago, organizou um evento a fim de homenagear Miguel Krassnoff, um ex-brigadeiro do regime Pinochet. Krassnoff foi condenado a 144 anos de prisão em 2006, acusado de sequestrar e matar 23 pessoas durante a ditadura chilena. Acontece que, como todos nós sabemos — tomando como base acontecimentos recentes, como os incendiários protestos estudantis em prol de uma educação gratuita e de qualidade no país — os chilenos não ficam calados diante das falhas do governo, e na certa não o fariam nessa situação. Segundo o Estadão, aproximadamente 2000 manifestantes receberam os convidados do evento “com uma chuva de golpes, ovos e insultos”.


A cereja do bolo, porém, é outra.

No começo desse mês, militares argentinos  —  entre eles o ex-general Luciano Benjamin Menéndez, que já acumula seis condenações à prisão perpétua por sequestros, torturas e assassinatos, o tenente Jorge Olivera, acusado do sequestro, tortura, estupro e assassinato da modelo Marie Anne Erize, e quatro ex-pilotos dos “voos da morte” —  foram julgados e condenados pela Justiça do país pelos crimes cometidos durante a ditadura.

A Justiça brasileira poderia seguir caminho semelhante, julgando e condenando os criminosos de farda que agiram durante o nosso regime militar. Assim como Krassnoff, no Chile, aqui os mesmos são incoerentemente tratados como heróis por alguns. Contudo, a lei de acesso a informações públicas e a criação da Comissão da Verdade, sancionadas pela presidente Dilma, podem mudar esse cenário deprimente. Esperemos.


Ruanda ~ 1994

O assunto veio a tona recentemente com a seguinte notícia: http://bit.ly/qjSUNy. Assim como um garoto hiperativo que assassinou o gato da vizinha com uma paulada e enterrou os restos mortais do bichano no jardim pra NINGUÉM ficar sabendo, a França tenta — e não é de agora — criar obstáculos para impedir uma investigação detalhada do que DE FATO aconteceu na Ruanda antes, durante e depois da matança descerebrada que vitimou quase um milhão de pessoas em 1994.

Relembrando:

Há cinco anos, a Justiça francesa acusou o atual presidente da Ruanda, Paul Kagame, e nove de seus assessores de planejarem o atentado que matou Juvenal Habyarimana. O senso comum diz que a morte do ex-presidente Habyarimana desencadeou o genocídio, e eu digo um juiz comedor de baguete levou ANOS para culpar implicitamente DEZ ruandeses pela morte de aproximadamente 800 mil pessoas. HAHA.

Já existia uma divisão étnica entre o povo ruandês quando os alemães (e posteriormente os belgas) chegaram ao país. O europeu desembarcou na Ruanda trazendo (como sempre) doenças venéreas & outras desgraças, e durante todo o período de colonização disseminou o ódio entre tutsis e hutus, concedendo privilégios políticos, econômicos e sociais a uns e marginalizando outros. Quando o país se tornou independente na década de 60 e os europeus deram o fora, os ânimos já estavam bastante acirrados entre as duas etnias, e a eclosão de uma guerra civil era apenas questão de tempo.

Mas ninguém ligou quando o bicho de fato pegou na Ruanda, em 1994. As GRANDES potências preocuparam-se sobretudo em retirar seus cidadãos do país antes que eles fossem estuprados & mutilados com facões enferrujados. A ONU designou um generoso contingente de 400 capacetes azuis para proteger um porrilhão de civis indefesos de um porrilhão de extremistas hutus armados até os dentes, e o fim da história todo mundo já conhece.

O ponto é: não importa quem matou Habyarimana. A morte dele foi apenas um pretexto para começar o genocídio que, diz-se, estava há muito planejado. Analisando a história da Ruanda como colônia, não é nada sensato responsabilizar os ruandeses, e tão somente os ruandeses — como fez em 2006 Jean-Louis Bruguière, o supracitado juiz comedor de baguete — pela matança desenfreada que devastou o país na primeira metade da década de 90.


E lá vamos nós…

Na terça-feira, o governo estadunidense afirmou ter desmantelado um possível complô terrorista iraniano, que visava assassinar o embaixador da Arábia Saudita em Washington. Segundo Gustavo Chacra, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Nova York, “um suposto espião iraniano com cidadania americana, Manssor Arbabsiar, teria negociado o assassinato com um cartel de drogas mexicano, sem saber que seu interlocutor era um agente infiltrado dos EUA”.

O roteiro elaborado pela gestão de Barack Obama é hollywoodiano, cheio de clichês e daria um péssimo filme.

Segundo Obama, o complô é “indiscutivelmente atribuído ao Irã”. Hillary Clinton deu o ar da graça com um discurso inflamado, onde afirmou que o país norte-americano vai trabalhar para aumentar o isolamento internacional do Irã e a pressão sobre o seu governo. Já Joe Biden, ao ser questionado sobre uma possível intervenção militar,  disse que “nenhuma opção pode ser retirada da mesa”, ou, em outras palavras, “é certo que vamos começar mais uma guerra estúpida para desviar a atenção da população da nossa economia em frangalhos”.

Autoridades iranianas classificaram as acusações do governo americano como falsas, hilárias e amadoras.

Guardadas as devidas proporções, foi assim quando Lyndon Johnson acusou o Vietnã do Norte de participar do ataque a embarcações norte-americanas no Golfo de Tonquim, em 1964, e foi assim quando George W. Bush acusou o Iraque de possuir armas de destruição em massa, em 2003.

O pretexto é basicamente o mesmo há quase cinco décadas.


Chá das cinco com borrachas

 
A polícia londrina considerou usar canhões d’água e balas de borracha para conter os tumultos que se espalharam pela cidade nos últimos dias (esse tipo de artifício, no caso das balas de borracha, é usado em São Paulo para dispersar maconheiros protestando pacificamente, então me pergunto o que faria nossa saudosa PM frente à uma multidão encapuzada & enfurecida incendiando e saqueando tudo como se não houvesse o amanhã). O  Peter Waddington, professor de políticas sociais na Universidade de Wolverhampton, disse que “simbolicamente, ter canhões d’água e armas disparando balas de borracha nas ruas de Londres pareceria o fim do mundo”. Veja bem, a polícia que hesita em utilizar tais métodos porque “pareceria o fim do mundo” é a mesma que atira em pessoas desarmadas, como no caso de Mark Duggan.

O David Cameron afirmou que “não há nenhuma justificativa para as agressões sofridas pela polícia”. A coman­dante de polícia Christine Jo­nes disse que “os policiais estão chocados e ultrajados com o nível de violência contra eles”. A BBC disse que “não parece haver um elemento racial nem político ou econômico na onda de violência que se iniciou em Tottenham e se espalhou pelo país”.

Vejam:


E agora leiam o último parágrafo novamente.

É deprimente a maneira como as autoridades e a mídia local tentam desviar a atenção do despreparo da chocada e ultrajada força policial para os saques e a destruição, e parecem esquecer que o que desencadeou tudo isso foi a morte de Duggan.